Batom
vermelho... Morgan sempre me contou que as mulheres de verdade devem ser
poderosas e essa mascara tão carnal, me fazia sentir assim. Tudo começou na
minha primeira vez, eu era jovem, uns 13 anos creio eu... Morgan me disse: “Tá
vendo aquele senhor ali? Ele vai brincar com você, seja uma boa menina e o
obedeça, ok?”. Então aquelas mão pegajosas me tocavam, mas eu fui uma boa
menina, fiz o que tinha que ser feito e continuei fazendo por mais uns 5 anos.
Camisa de
força... Foi como me guardaram em uma cela. O motivo? Isso realmente não importa
agora. Tudo que você precisa saber é que foi doloroso...E com amor. Morgan me
visitou algumas vezes naquele lugar... Me deram remédios para dormir...Para não
gritar... E então ele apareceu... Aquele gordo e peludo urso...E disse: “Oi
Garotinha, você quer sair daqui? Eu sei como! Você vem?”
Sid...
Aquela coisa se chamava Sid... Eu já estava cansada daquele lugar e aquilo quis
me tirar de lá e eu, mesmo um pouco chapada, aceitei. Sid falou: “Ao longo da
madrugada ele vem te dar teus sedativos. Não durma, resista. O resto eu te
conto no caminho”. O enfermeiro veio e quando estava para colocar aquela
agulha em mim, virei seu braço - a injeção foi nele, e corri pela porta. Sid me
guiou pelos corredores, passamos pela segurança. “Estamos livres”.
Doce... Um gosto doce de ar puro
veio a minha boca. Sid me perguntou o que me levou a aquele lugar. “Paixão”
respondi. “Tudo começou um pouco antes do meu cárcere. Ela se chamava Carmen e
era uma das meninas do Le Blanc Chateau, comandado pro Morgan. Passávamos as
noites juntas deitadas na minha cama. Eu queria ela só para mim, mas não, ela
precisava do mundo, e o mundo dela... Então eu a matei... Levei-a para um beco
e fiz da seguinte forma...”
Sufocar...
Meus dedos tocaram aqueles grossos lábios que se moviam tão
selvagemente. Uma confissão? Não...Um pedido de ajuda. Ela murmurava palavras
das quais o significados não faziam sentido para mim e seus olhos
molhavam a minha mão. Toquei aquele delicado pescoço e
apertei...Enquanto Carmen chorava, eu dizia meus motivos... Como mulheres da
rua como nós poderiam amar? Aquele sentimento não convinha a
pessoas como nós. Carmen fechou os olhos e dormiu, beijei sua boca e disse
adeus.
"Um
mundo sem amor"... Sid falou enquanto olhava dentro dos meus olhos. Me
perguntou o que faríamos. Eu não soube responder. Não podia voltar
para o sanatório, nem para Morgan então, juntos, seguimos perdidos pela noite.
Atravessando ruas e cruzando por pessoas, chegamos a uma antiga casa na qual
uma senhora observava o movimento enquanto segurava uma antiga foto. Era uma
imagem confortante. Nossos olhos se cruzaram, senti
lagrimas caírem do meu rosto e aquela mulher disse: "Teu coração
pesa?". Fiquei muda no momento, relutei e então respondi:
"Pesa"...
Respondi abaixando os olhos. Continuei a andar, a senhora então me chamou
novamente: "Entra menina! Tu tá toda suja!". Eu não tinha para onde
ir e nem o que fazer então aceitei o convite. Passei pela velha porteira e
adentrei a casa. Era um pequeno chalé de madeira onde entrava pouca luz e o
cheiro tinha gosto da comida da Morgan. A velha senhora me preparou uma xícara
de chá de limão e me deu um pirex com amendoins.
Quente... Era a primeira vez em
muitos dias que eu não tomava um banho frio. Sid estava sentado na privada me
olhando e rindo. Perguntei o que era tão engraçado, ele disse: "Tá
relaxando Savannah". Disse a ele que não mas concordei plenamente. A
senhora me deu uma muda de roupas e me senti plenamente bem de não estar usando
mais aquela camisola do sanatório. Me vesti e voltei a conversar com a velha
senhora. Ela me contou sobre seus amores, seus dias e então falou de uma
filha...Uma pequena menina a qual havia abandonado, seus olhos encheram de
lagrimas, os meus também...Quem era aquela mulher afinal? Eu só queria fugir,
Sid não deixou.
Dormir... A
senhora foi então para seu quarto, deitou em sua cama e se despediu. Disse que
podia ficar na casa por essa noite. Sid insistiu em ficar, concordei. Os grilos
chiavam pela rua, se misturando aos carros e as buzinas enquanto eu perambulava
pela casa. Abrindo alguns livros, acabei por encontrar um álbum de fotos e
nele, haviam fotos de uma pequena garotinha. A velha senhora então levantou da
cama.
“Meu pequeno
tesouro”... A senhora tomou o livro de minhas mãos... “Camélia... como a
flor... Essa era minha filha... Quando era minha, eu a perdi... Fui fraca...Ela
foi pras ruas ainda pequena...Dizem que ela mudou de nome, virou Carmen... Não
sei muito mais do que isso...”. Meus olhos começaram a se encher de lagrimas.
Sid dizia para mim contar a verdade...Eu não sabia o que fazer.
O
cheiro da flor... Aquela sala se encheu de cores e sensações... O que era
aquilo? “Culpa” pensei... Sid me olhava como quem via minha alma... “Você é uma
criança Savannah... Uma criança...” ele falou... A senhora continuava a me
contar sobre Camélia... Cada sentença me derrubava mais e mais... Quando dei
por mim, estava no chão, lavada em lagrimas.
Redenção...
A senhora me abraçou – “O que foi menina?”. Eu soluçava e da minha boca apenas
saiam palavras abafadas... Então contei... Contei sobre Carmen, contei sobre
nós, sobre nossa vida, nosso amor... Contei que a matei. Os olhos daquela
mulher enrijeceram e me fitavam de uma maneira penosa... A amargura daquele
momento tomou minha boca... “Você me odeia.”... Ela disse que não... “Como
posso te odiar?”. Eu não entendi os sentimentos dela. “Por favor, me odeie, não
minta! Você me odeia! Eu matei a tua filha... EU!”... “Não”, ela disse... ”Eu
matei minha filha no instante que a deixei sair... a Maior culpada sou eu”. Ela
me abraçou, eu sorri.
O
ultimo adeus... Eu não conseguia mais olhar para velha senhora que havia me
dado um lar naquele dia. Levantei do chão e fui em direção à porta. A senhora
segurou minha mão – “Você não precisa mais fugir... Não há nada lá fora para
você, não há nada para pessoas como nós”. Sid a abraçou e, embora aquela velha
não conseguisse a vir, sentiu-se consolada. “Não vá...”. Toquei seus dedos e
sorri...